Instituto Transatlântico Democrático - Newsletter
Núm. 1 de 2007   

OPINIÃO
 
África nossa

Paulo Pereira de Almeida,
Professor do ISCTE, investigador


    Afirmar que o continente esquecido que foi África estará de volta no século XXI ainda causa receio e perplexidade. Receio, uma vez que se mantém o fantasma da corrupção e das guerras intermináveis; e, simultaneamente, perplexidade, pois muitos ainda não acreditam numa mudança de percepção, segundo qual este Continente deixou de ter um interesse marginal na economia mundial globalizada.

    Todos sabemos que desde o início dos processos de descolonização – há mais de 50 anos – as nações africanas têm sofrido consideráveis reveses que as afastaram dos benefícios dos países desenvolvidos. Contudo, este é um território de grandes desafios, de consideráveis oportunidades e de sucessos nem sempre reconhecidos. Veja-se, por exemplo, que, desde 1990, mais de 40 dos 50 países da África sub-sahariana realizaram eleições livres e multipartidárias; e a verdade é que 6 maioria dos africanos já pode, hoje em dia, escolher os seus líderes nos boletins de voto. Além disso, os políticos africanos têm vindo a reconhecer a necessidade de promover a cooperação e a integração económica e política; não terá sido por acaso que, em Julho de 2002, a Cimeira da Líderes Africanos já falava numa União Africana renovada e revigorada. E a este sinal de consenso acrescentou-se a formulação de um conjunto de iniciativas de integração regional que incluem - entre muitas outras – a possibilidade de criação de uma união monetária e da partilha de um Banco Central. E se, também neste ponto, existem dificuldades e assimetrias entre os países – em particular em termos de comércio e de disciplina fiscal – já existem passos importantes para a criação de uma moeda comum estável e para o controlo da inflação. Por outro lado, o conhecimento mais rigoroso de África passa também pela formulação de estatísticas credíveis acerca das realidades de cada um dos países. Ora também neste ponto se têm dado passos inteligentes, sendo o mais recente o caso de Angola que, em Dezembro de 2006, lançou aquele que será o seu primeiro Recenseamento Geral da População desde 1970, o qual deverá estar concluído em 2010.

    Por tudo isto – e, sobretudo, porque Portugal pode ser dos poucos países que trata África por “tu” – África poderá vir a ser cada vez mais “nossa”. Nossa, mas em sentido figurado, é claro. Sem quaisquer complexos em relação a Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe.


in Jornal de Notícias, 21/12/2006

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